“A imagem do repórter americano Spencer Platt ganhou o recente World Press Photo, o principal concurso de fotojornalismo do planeta. Nela podemos ver uma cena bizarra, que nos fala do absurdo da guerra: um grupo de jovens de aspecto afluente passeia-se entre as ruínas de um bairro de Beirute que acabou de ser bombardeado pela aviação israelita.
O descapotável desliza na paisagem surreal e fumegante, as mulheres têm aspecto de top-model e o motorista parece sair de um anúncio de Hugo Boss. Turistas ricos a verem a desgraça alheia, metáfora do mundo contemporâneo?
Mas segundo conta o Financial Times, a revista libanesa L’Agenda Culturel decidiu investigar quem eram as personagens desta fotografia e descobriu-as. E a narrativa que lemos na imagem cai por terra.
Era domingo. O condutor e duas das mulheres são irmãos, chamam–se Maroun e vivem numa rua próxima. Outra mulher é vizinha. Segundo explicaram à revista cultural, não estavam a fazer “turismo de guerra”, como sugere a imagem, mas apenas a ver os estragos, para avisarem os parentes. As personagens dizem que a viatura foi fotografada de forma a parecer mais luxuosa. Trata-se de um mini Cooper, que o condutor pediu emprestado à namorada para, acompanhado pelas irmãs, constatar se havia estragos na sua casa. As testemunhas afirmam ser de classe média.
Uma imagem pode, enfim, enganar tanto como mil palavras. Mas para os irmãos Maroun, de Beirute, esta é sobretudo a história dos perigos de ser bonito, de não parecer vítima e, mesmo assim, querer observar os efeitos do mais recente bombardeamento dominical.”
Por Luís Naves in Diário de Notícias.

Originalmente distribuída pela Getty Images com a legenda: “Ricos libaneses recorren una calle para ver los destrozos causados por los bombardeos del 15 de agosto de 2006 en un barrio del sur de Beirut, en Líbano. En este primer día de alto el fuego entre Israel e Hizbulá, obtenido gracias a Naciones Unidas, millares de libaneses regresan a sus casas y pueblos”.
Via Fotojornalismos

marcos palacios