O Grupo de Jornalismo Online (Gjol/UFBA) realiza, no próximo dia 28 de maio, às 14h30, a defesa pública da dissertação “DN Brasil, entre a promessa e o naufrágio: inovação e crise de governança no jornalismo”, do mestrando Paulo Markun.

O trabalho mergulha na trajetória do DN Brasil, veículo jornalístico multiplataforma criado para atender a comunidade brasileira residente em Portugal, e analisa os bastidores de um projeto que nasceu como promessa de inovação editorial, mas acabou atravessado por crises estruturais e de governança.

A banca de defesa contará com a participação dos professores João Canavilhas, da Universidade da Beira Interior (UBI), em Portugal, e Caio Túlio Costa, como membros externos, ficando a presidência com a professora e orientadora Suzana Barbosa. A defesa será aberta ao público, com participação permitida a todos os interessados mediante solicitação do link ao GJOL ou diretamente ao autor.

Mais do que uma pesquisa acadêmica, a dissertação carrega também o peso de uma travessia pessoal. Cinquenta anos depois de concluir a graduação na ECA-USP, Markun voltou à universidade após uma longa carreira nas redações brasileiras. A ideia inicial era desenvolver uma investigação histórica utilizando inteligência artificial como ferramenta de pesquisa biográfica, tendo como personagem central Robert Adams Jr., diplomata norte-americano que testemunhou a queda do Império e a proclamação da República no Brasil.

Mas o reencontro com o universo acadêmico mudou os rumos da pesquisa.

Entre regras metodológicas, cânones científicos e o distanciamento entre teoria e prática jornalística, o autor decidiu transformar em objeto de estudo sua experiência mais recente: a direção editorial do DN Brasil, projeto lançado pelo Global Media Group para dialogar com os mais de meio milhão de brasileiros que vivem em Portugal — uma comunidade frequentemente invisibilizada pela mídia local.

Sob orientação da professora Suzana Barbosa, o que começou como memória profissional tornou-se um relato crítico sobre inovação, gestão e sustentabilidade no jornalismo contemporâneo.

O resultado é uma dissertação marcada menos por celebrações e mais por reflexões duras sobre os limites da inovação quando não há estruturas sólidas para sustentá-la.

“A principal lição é que nenhuma inovação jornalística sobrevive sem transparência na propriedade e governança sólida”, afirma Markun. Para ele, o DN Brasil não fracassou editorialmente. O colapso veio da estrutura empresarial que deveria sustentá-lo.

A metáfora do “naufrágio”, presente no título da pesquisa, dialoga também com uma referência literária evocada pelo autor: O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse. No romance, a utópica comunidade de Castália dedica-se à busca intelectual abstrata e refinada. Markun aproxima essa imagem de sua volta à academia — e do choque entre idealismo e realidade institucional.

“Até as contas de vidro precisam de alguém que pague as contas”, escreve.

Apesar do encerramento traumático da experiência empresarial, a pesquisa aponta que o DN Brasil deixou uma evidência importante: existe demanda real por um jornalismo voltado às comunidades da diáspora brasileira, tratado com seriedade, profundidade e identidade própria.