O que deu no New York Times?

Reflexões sobre a troca de ombudsman por comentários de internet, a centralidade dos leitores no processo de produção e como maquiar cortes de gastos.

 

No contexto da restruturação que mira o fortalecimento de sua versão digital, o The New York Times anunciou que a partir deste mês de junho deixará de ter a função de Public Editor (o que conhecemos por ombudsman nas bandas de cá). As justificativas poderiam ser várias – inclusive, mais honestas -, mas o comunicado interno assinado pelo publisher da marca, Arthur Sulzberger Jr, focou na centralidade da participação do leitor no processo de produção de notícias.

O argumento é que, neste momento de hiperconexão, os leitores não precisariam mais da tutela de um profissional dentro da estrutura da redação para defende-los e vigiar as questões políticas e de qualidade do que se produz nela. E, se não precisam, é porque enquanto seguidores das redes sociais do jornal e usuário dos espaços de comentários – que serão ampliados – eles poderão demandar posicionamentos do veículo e servirem como “cão de guarda” do bom jornalismo.

“Nossos seguidores na mídia social e nossos leitores na Internet servem, juntos, como uma forma moderna de fiscalização, mais vigilante e mais poderosa do que uma pessoa trabalhando sozinha jamais poderia ser. Nossa responsabilidade é aumentar o poder de todos esses fiscalizadores, e ouvi-los, em lugar de canalizar suas vozes por meio de um único posto”, afirmou Arthur Sulzberger Jr.

Quem conhece minimamente o submundo dos comentários de páginas de notícias (na web ou nas redes sociais) sabe que essa conta não fecha.

Há evidências que indicam que fatores econômicos e de reposicionamento da marca explicam melhor a decisão do respeitado jornal estadunidense. Em um outro comunicado, divulgado na mesma semana e assinado por Dean Baquet, editor-executivo, e Joseph Kahn, secretário de Redação, a empresa ofereceu incentivo às demissões voluntárias, especialmente de editores, como parte do enxugamento de sua equipe. A própria Liz Spayd, que estava como ombudsman da publicação, citou a crise do setor em sua última coluna. Uma das seis profissionais a ocupar o cargo agora extinto, Margaret Sullivan também destacou no twitter que o momento é de corte de gastos nas redações e alfinetou discretamente que a função do ombudsman pode ser vista para além de um agregador de queixa dos leitores.

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Os desdobramentos da medida, segundo informou o jornal, são a expansão da plataforma de comentários (antes restrita a cerca de 10% das publicações) e a criação de uma espécie de “Central do Leitor”. Vale lembrar que Liz é uma profissional experiente e especializada na cobertura da mídia, com passagens pela Columbia Journalism Review e The Washington Post. Há críticas sobre sua atuação na função. Também é importante rememorar que O NYT criou a função de ombudsman há 14 anos, depois de um escândalo de plágio envolvendo o repórter Jayson Blair.

Os questionamentos que ficam, cuja expectativa de resposta não mais poderá ser personificada na figura de Spayd são: em tempos que transparência virou uma palavra-chave das instituições sociais e no momento que pesquisas revelam que as pessoas têm deixado de confiar nos meios de comunicação, é possível defender essa decisão do NYT? A sobreposição de comentários raivosos, memes e reações algoritimadas pela equipe de Zuckerberg dão conta por si só de produzir uma reflexão sistemática e com conhecimento de causa dos processos da indústria da notícia? O exercício de falar sobre si, expor publicamente suas fragilidades, dá o mesmo resultado que um turbilhão de vozes? E ampliar a participação do leitor e manter um espaço editorial da crítica de si mesmo são excludentes, como sugere a carta? Encontrar tendências, padrões e difundir informações a partir de matérias-primas como as vozes das ruas e dos pares não estão na essência do fazer jornalístico?

A recém-defendida tese de Vitor Torres, membro do GJOL e orientando da professora doutora Suzana Barbosa, sobre o que ele chama de mensuração editorial, emerge o cenário em que os veículos estão muito preocupados em medir esses atores que de tão ativos nem podem mais ser chamados de audiência. Os meios de comunicação buscam formas de fazer com que essa medição interfira na produção de conteúdos jornalísticos. Vale, então, refletir a partir deste caso do NYT sobre o papel da mediação do jornalismo nesses ambientes de redes sociais, a qualidade e os tipos de interações que esses ambientes propiciam entre os usuários e as marcas jornalística. Provocações para pensarmos ou deixarmos que os algoritmos resolvam.