Reconfiguraram o sentido de “urgente” no jornalismo

Urgente: do latim urgens -entis, particípio presente de urgeo, -ere, apertar, oprimir, perseguir, acossar, impelir, apressar, insistir, persistir). No dicionário de sinônimos, o adjetivo se refere a aquilo que urge, que está prestes a acontecer, sem demora, iminente, instante.

A urgência é uma qualidade que sempre esteve em torno da instituição jornalística. O sentido de atualidade, que caracteriza a informação jornalística, perpassa pela circulação de conteúdos do presente entre a opinião pública. Em Otto Groth, no livro O Poder Cultural Desconhecido (2011), há uma explicação bastante simples deste sentido de tempo presente para a definição da periodicidade diária dos jornais – grosso modo, uma adequação à rotina diária de tarefas dos seres humanos guiada fisiologicamente e pelos intervalos de dias e noites, semanas ou estações no ano.

Obviamente, em casos de extrema urgência no jornalismo, edições extraordinárias podiam impressas no meio do dia. O acervo do jornal O Globo traz exemplos destes casos como o início da Segunda Guerra Mundial, o suicídio de Getúlio Vargas ou os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA.

Na TV, a noção de urgência é tão forte que somente a música do Plantão da Globo, quase como em um experimento behaviorista de estímulo-resposta, já abala emocionalmente muitos telespectadores que têm a grade de programação interrompida por uma notícia extraordinária. Uma rápida pesquisa informal aqui em casa sobre o que se espera ao ouvir a vinheta é bastante indicador do sentido original de urgência: mortes, tragédias, guerras, grande mudança na política, catástrofes.

Com a internet e a facilitação da publicação, circulação e acesso às informações jornalísticas, o senso de urgência tem sido redefinido pelo jornalismo em redes digitais. Desde o engenhoso plano de projetos como o Último Segundo, do IG, de publicar notícias a todo o momento e assim que o fato ocorra, passando pela possibilidade de transmissões ao vivo, além de todas as outras características do jornalismo digital que conhecemos, tudo contribuiu para encurtar nossa noção de extensão do presente pela quantidade de informações as quais temos acesso.

EXTRA! EXTRA!

Esta é uma semana de divulgação dos vencedores dos vários Prêmios Nobel. E todo mundo que acessou um portal de notícias nacional ou páginas de veículos de jornalismo em mídias sociais no período da manhã se deparou com “URGENTE: …. ganha o Prêmio Nobel de…” Será que o vencedor de um Prêmio Nobel mereceria mesmo uma edição extraordinária impressa no meio do dia em um jornal impresso?

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Tweet do G1 com o alerta da notícia sobre o vencedor do Nobel de Literatura 2016. Outros veículos também usaram a mesma estratégia

Pode parecer muito preciosismo criticar a nova noção de notícias urgentes no jornalismo e fazer comparações com outros contextos, mas logo se perceberá que a falta de critérios para a utilização deste selo pode tornar qualquer coisa urgente e esvaziar o seu sentido. Este, aliás, é um sintoma de nossa sociedade embriagada pela novidade, pelas mudanças constantes, pela velocidade e efemeridade de tudo. Quem nunca recebeu um e-mail com o assunto escrito “URGENTE”, quando o real conteúdo do e-mail não tinha nada de urgente? A Eliane Brum já escreveu sobre o sentido de urgência em nossa sociedade e inseriu também os dispositivos móveis neste meio.

Em tempos em que a notícia persegue os usuários em suas caixas de entrada dos e-mails, em alertas nos celulares, nas timelines de redes sociais, é preciso ter um refinamento melhor sobre os critérios de uso do selo Urgente no jornalismo. Com o grande volume de informações as quais somos expostos diariamente, usar este tipo de estratégia revela desespero por cliques e uma noção bastante ultrapassada do “furo jornalístico”, uma vez que em segundos todos os concorrentes estarão replicando a mesma notícia urgente.

O que os veículos ainda não entenderam é que diante de tantas informações, o papel de jornalistas na curadoria dos temas diários e os critérios de hierarquização das notícias precisam ser cada vez mais rígidos. Não é razoável equiparar o interesse público de uma notícia de uma deposição de um Presidente da República com os vencedores do Prêmio Nobel. O senso de urgência precisa ter o leitor no centro de tudo.