Tecnologia móvel cria nova classe de consumidores de notícias

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Depois de um momento de euforia, com muitas pesquisas exaltando o potencial dos dispositivos móveis para o consumo de notícias, inclusive com a disposição dos leitores para textos mais aprofundados, sobretudo com os tablets, novos trabalhos têm apontado resultados em outra direção. De modo dramático, a cada nova pesquisa, tem-se concluído que a tecnologia mobile não tem sido mais tão benéfica para o jornalismo. O consumo de notícias via tablets não decolou (muito pelo contrário), enquanto os smartphones têm sido aproveitado bastante para o entretenimento.

Há pouco mais de um mês, fomos apresentados ao conceito de “notícia incidental”, que surgiu a partir dos resultados de um estudo qualitativo sobre o consumo de notícias pelos jovens, realizado pelo Centro de Estudos de Mídia e Sociedade na Argentina (MESO). Compartilhamos em nossas redes algumas informações sobre a pesquisa que concluía que os jovens têm utilizado cada vez mais o celular para ter acesso à notícias.  O problema é que esse consumo se apresenta tendo as plataformas sociais como intermediários.

A pesquisa acima já tinha sido suficientemente impactante para os últimos 30 dias, mas no final do mês de agosto, um relatório da Harvard’s Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy tornou o cenário ainda mais incerto para o jornalismo móvel. “Cidadãos digitais de segunda classe”, ou seja, menos informados, estão sendo gerados a partir do consumo de notícias através dos smartphones.

Os motivos: telas pequenas, velocidade e custos de conexão móvel. Johanna Dunaway, autora do relatório, usou o software de eye-tracking para chegar às conclusões de sua pesquisa. Em resumo: há uma menor predisposição dos usuários para ler conteúdos por longos períodos de tempo no smartphone do que em desktops.

Outra conclusão importante do estudo, é que os consumidores de notícias mobile são menos engajados, menos informados e só se interessam por esportes e entretenimento. A cobertura política passa longe dos interesses deste grupo. (Contudo, uma questão que logo aparece diante desta conclusão é: será que esta legião não já existia independentemente do contexto de tecnologias digitais? Os jornais, revistas e a TV, por exemplo, sempre tiveram que dedicar tempo e espaço em seus produtos para notícias que não são de interesse público. Talvez, agora seja mais fácil mensurar este público).

A verdade é que ambas as pesquisas revelam a necessidade das organizações jornalísticas reverem seus processos de produção e produtos para equilibrarem a tradicional discussão entre a oferta de notícias de interesse público e notícias de interesse do público. A busca exclusiva pela cooptação de leitores de “notícias incidentais” certamente não será o melhor caminho para as grandes empresas que têm a reputação como um dos seus principais ativos.

O grande desafio exposto nos resultados de Johanna para o jornalismo é conseguir disputar a atenção desta “nova classe” usuários seduzidos pelas redes sociais e, principalmente, pelos jogos que exploram diversos recursos e elementos destes aparelhos. Sim, será preciso que o jornalismo inove em seus conteúdos e na forma de apresenta-los.